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O Brasil anda a todo o vapor. Após o enfraquecimento da economia em 2009, o Produto Interno Bruto atingiu seu maior crescimento da série histórica no primeiro semestre deste ano. O índice teve expansão de 8,9%, em relação a igual período de 2009, o melhor desempenho desde o início da série, em 1996. Motivos para essa retomada não faltaram e são de comum conhecimento: distribuição de renda, acesso a crédito, incentivos à indústria.

Um dos setores que mais receberam atenção do governo nos últimos anos foi o de construção civil. Isso porque não é de hoje que se diz: para que a economia tenha bons desempenhos, é preciso que o setor de construção civil esteja num momento positivo. A boa notícia é que para os próximos anos esta regra não deve mudar, pois o Brasil não apenas está num momento de investimentos em infraestrutura, como deve sustentar essa tendência no mínimo por mais alguns anos. De acordo com um estudo apresentado durante o 9º Congresso Brasileira da Construção, organizado pelo Departamento da Indústria da Construção da Fiesp, as projeções para habitação e infraestrutura até 2022 apontam que será necessário construir 23,5 milhões de novas habitações, a fim de financiar imóveis para as novas famílias brasileiras, erradicar as moradias inadequadas e reduzir ao mínimo o número de famílias obrigadas a residir no mesmo domicílio. O número não é pequeno. Para se ter uma idéia, é o dobro do número de residências que existe atualmente em toda a Argentina.

Além de todas essas projeções, os incentivos atuais animam a indústria da construção civil. No final de 2010, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a prorrogação da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para materiais de construção até 31 de dezembro de 2011. A desoneração terminaria uma ano antes.

Com isso, a expectativa de expansão nas vendas do setor de construção atinge números invejados. O ano de 2010 encerra com expansão de 13% nas negociações e a projeção para o ano seguinte é de atingir novo aumento expressivo, na casa dos 8% a 10%. O resultado é que o segmento conseguiu não apenas recuperar o que foi perdido com a crise financeira internacional, mas também vem confirmando mês a mês números superiores aos patamares registrados anteriormente.

A indústria da construção civil conseguiu ser a atividade com o maior crescimento no país na comparação entre o terceiro trimestre de 2010 com o mesmo período de 2009, com expansão de 16,4%.

Os estímulos e o desempenho da construção civil refletem em todos os segmentos da economia pelo fato de o setor ser um grande empregador. No primeiro semestre de 2010 a ocupação neste segmento teve ampliação de 1,3% nas regiões pesquisadas pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). A renda também é um incentivador da economia. De janeiro a junho de 2010, a remuneração dos ocupados da construção civil aumentou (10,7% em Recife, 10,6% no Distrito Federal, 9,1% em Belo Horizonte, 8,8% em Salvador, 6,9% em Fortaleza e 1,5% em Porto Alegre). Índice que se mostrou positivo também no segundo semestre.

Outra boa notícia para o segmento é que, além dos incentivos federais, os bons ventos que sopraram em 2010 devem continuar pelos próximos anos. A realização de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas em 2016 são grandes o suficiente para movimentar investimentos em infraestrutura por todas as regiões do país, independente de onde estão localizadas as cidades-sede destes eventos. E não ganham, neste caso, apenas empresas envolvidas diretamente com a construção de estádios ou de estradas e aeroportos. Toda a economia ganha com mais renda e emprego. E só para se ter uma idéia de quanto isso pode crescer, um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e LCA Consultoria aponta que o setor de construção civil deve empregar, direta e indiretamente, mais de 10 milhões de pessoas em 2022. Hoje, esse número é pouco superior a 2 milhões de pessoas.

Moradias

Fora do cenário das mega-construções, a construção de moradias (área que mais interessa à indústria da madeira) também cresce e dá provas de que vai manter sua aceleração por alguns anos. Mesmo com a valorização do preço do metro quadrado em praticamente todas as grandes cidades do país, a venda de novos imóveis vem crescendo de forma constante. Somente em 2010, o uso do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e da poupança para a compra da casa própria cresceu 40,2%. De acordo com dados da Nota de Política Monetária e Operações de Crédito, do Banco Central, divulgada no final de novembro, o montante chegou a R$ 122,45 bilhões.

A expansão dos recursos direcionados a esse setor é confirmada mês a mês. Em outubro, houve uma elevação de 2,9%, enquanto que, em 12 meses, o aumento do uso de investimentos em crédito habitacional subiu 51,1%. Os cálculos levam em conta o financiamento direcionado às pessoas físicas e às cooperativas habitacionais.

Entre os maiores motivos para essa expansão está na facilidade de crédito. No total, as operações de crédito do sistema financeiro para habitação somaram R$ 129,12 bilhões em outubro, com alta de 40,6% no ano. As instituições públicas representaram a maior participação, com 75,3% do total, ao emprestar R$ 97,34 bilhões em outubro. No ano, o crédito habitacional destes bancos subiu 42,4%. Somente a Caixa Econômica Federal, responsável por mais de 70% do financiamento habitacional, estima ter emprestado R$ 70 bilhões, com recursos da Caderneta de Poupança e do FGTS. O aumento é de 53% em relação a 2009.

As entidades do setor da construção estão otimistas, como é o caso do Sinduscon de São Paulo. Isso porque, como afirma o sindicato, mesmo que não se espere que o crédito imobiliário dê saltos tão expressivos em 2011, os bancos se preparam para elevar o volume de suas carteiras imobiliárias. O Banco do Brasil, por exemplo, pretende passar seus financiamentos imobiliários dos R$ 3,2 bilhões registrados em 2010 para R$ 6,5 bilhões em 2011. Na mesma direção, o HSBC espera que a carteira de crédito cresça cerca de 50%. No Bradesco, a aposta é de expansão de 20%. Essa movimentação dos bancos deve, além de aumentar o crédito disponível, torna-lo mais acessível. Com o acirramento de competição entre as instituições financeiras, a tendência é de que os juros cobrados para os financiamentos caiam ao longo do ano.

Varejo

Se a indústria da construção está comemorando expansão, a história para o varejo do segmento, composto por milhares de lojas de materiais de construção e redes focadas no consumidor final, não poderia ser diferente. Em dezembro de 2010, o segmento obteve uma elevação de 0,8% em relação a novembro e de 17% se comparado com o mesmo período do ano anterior. De acordo com o Serasa, a oferta de crédito em condições favoráveis, o elevado grau de confiança dos consumidores e o bom momento vivido pelo mercado de trabalho foram as principais causas para o desempenho da atividade varejista em 2010. O varejo de construção civil foi o que mais cresceu na atividade em 2010. A pesquisa também verificou índices positivos em outros setores, como supermercados, alimentos e bebidas (6%); móveis, eletrônicos e informática (14,9%); veículos, motos e peças (10,9%); e tecidos, vestuário, calçados e acessórios (8,2%).

Para esse segmento, dizem especialistas, o principal incentivador foi a melhoria da renda da população brasileira, que passou a ter condições de ampliar sua casa, fazer uma reforma, e de até mesmo investir em uma nova construção. A tendência para 2011 é de que, com a contínua distribuição de renda favorecida pelos programas sociais e pelos incentivos à geração de empregos, as lojas voltadas à construção civil somem números positivos mês a mês.

Para o setor madeireiro/florestal, a construção civil tem grande importância tanto para a comercialização de produtos acabados, pois o mercado concentra mais suas vendas em linhas de esquadrias, molduras, pisos e estruturas de telhados. Já os produtos estruturais ainda têm uma participação pequena no volume total de vendas para a indústria da construção, mas, aos poucos, este segmento vem ganhando espaço de mercado. Enquanto que na Europa e Estados Unidos o uso de madeiras nas mais diversas aplicações para a construção de casas é comum, no Brasil ainda existe uma resistência cultural que valoriza mais os imóveis de alvenaria.

Ainda de forma indireta, a expansão do setor da construção civil pode impulsionar as vendas da indústria moveleira. Novos imóveis são sempre sinônimos de incentivos a compra de roupeiros, camas, cozinhas e dos mais diversos mobiliários. As estimativas confirmam que o setor de móveis encerrou 2010 com expansão de entre 10% e 14% nas vendas (segundo variações entre institutos de pesquisas diferentes) e que, para 2011, o ritmo continue acelerado.

O cenário atual mostra que a indústria da madeira tem muito a crescer em vendas para a construção civil. Mas, para isso, a indústria florestal deve dar atenção especial a diversos fatores (a maioria deles de médio e longo prazos), mas que devem colaborar para que o setor como um todo tenha uma imagem muito mais positiva. Um dos pontos que devem ser atacados é a questão ambiental do uso da madeira. A indústria precisa passar explicações de forma mais clara e transparente a respeito das formas de plantio e colheita e de questões como manejo sustentável. Outro aspecto importante é o aumento de inovações de sustentabilidade na cadeia produtiva da construção. Cada vez mais edifícios são construídos com a utilização de madeira certificada nas obras e a instalação de sistemas de conservação de água e energia.

É preciso ainda investir de forma mais ativa junto aos formadores de opinião e profissionais do segmento que têm poder de decisão, como é o caso dos engenheiros e arquitetos. São eles que podem explorar (e divulgar) as mais variadas opções de uso das madeiras e desmistificar o fato de que o produto é bom apenas para o uso como acabamento ou em peças como janelas e portas. Outro ponto que deve ser tratado são questões ligadas à proteção, durabilidade e resistência da madeira a intempéries. Seguir normas técnicas e padrões de uso são exigências que a indústria da construção civil não abre mão.

Outro fator que é bastante atrativo para as empresas do setor madeireiro é o fato de que a indústria da construção civil não tem o hábito de importar produtos. Apenas 2% do volume de insumos e materiais consumidos pelo segmento é importado. Além da competitividade brasileira, a grande pulverização do varejo da construção é fator positivo para empresas madeireiras que não precisam ver variações cambiais ou investidas estrangeiras como um fator de risco.

Números da construção civil
- Até 2022 deverão ser construídas 23,5 milhões de novas habitações
- 31 de dezembro de 2011 é o novo prazo para a redução de IPI do segmento
- Crescimento do setor em 2010 foi de 13%
- Projeções para 2011 apontam para expansão de até 10%
- Somente em 2010, o uso do FGTS e poupança para a compra da casa própria cresceu 40,2%, somando R$ 122,45 bilhões
- Mais de 10 milhões de pessoas devem ser empregadas na construção até 20